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XXXV


O matuto João


(Pernambuco)


Havia um homem de nome Manoel, casou-se com uma mulher chamada Maria e tiveram um filho que se chamou João. Os paes, por serem muito pobres, não lhe ensinaram a lêr; porém João era muito activo. Um dia sahiu de casa com uma cachorrinha que sua avó lhe tinha dado e foi passear. No caminho soube que no Reino das tres princezas havia grande festa e um casamento, dentro de quinze dias, com uma das filhas do rei, si alguem decifrasse uma adivinhação. Já muitos homens tinham morrido na forca por não poderem decifrar a adivinhação.

João, chamado o amarello, voltou para casa e disse ao pai que ia pelo mundo a fóra ganhar a sua vida. O pai consentiu e a mãi lhe preparou um pão muito grande e envenenado e arrumou-o na trouxa. João partiu com a sua cachorrinha. Não sabendo bem os caminhos, perdeu-se nas montanhas, e, depois de andar muito errado, deu n'uma campina já de noite. Ahi dormiu. No dia seguinte passou elle um rio, que tinha tido uma grande enchente e onde viu um cavallo morto, e os urubús já lhe estavam dando cabo. Como havia correnteza, as aguas puxavam o cavallo de rio á baixo. João fez reparo n'aquillo e seguiu seu caminho.

O sol já pendia quando elle sentou-se debaixo de um pé de arvore para comer o seu pão, e n'isto deu-lhe o coração aviso que não comesse sem experimentar em sua cachorrinha. Logo que elle deu do pão á cachorrinha, ella expirou. Muito sentido com isto, elle pegou-a nos hombros, e os urubús começaram a atrapalhal-o. Pa-