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XV


Maria Borralheira


(Sergipe)


Havia um homem viuvo que tinha uma filha chamada Maria; a menina, quando ia para a escola, passava por casa de uma viuva, que tinha duas filhas. A viuva costumava sempre chamar a pequena e agradal-a muito. Depois de algum tempo começou a lhe dizer que fallasse e rogasse a seu pai para casar com ella. A menina pegou e fallou ao pai para casar com a viuva, porque «ella era muito boa e agradavel.»

O pai respondeu: «Minha filha, ella hoje te dá papinhas; ámanhã te dará de fel.» Mas a menina sempre vinha com os mesmos pedidos, até que o pai contractou o casamento com a viuva. Nos primeiros tempos ainda ella agradava á pequena, e, ao depois, começou a maltratal-a.

Tudo o que havia de mais aborrecido e trabalhoso no tracto da casa era a orphã que fazia. Depois de mocinha era ella que ia á fonte buscar agua, e ao matto buscar lenha; era quem accendia o fogo, e vivia muito suja no borralho. D'ahi lhe veio o nome de Maria Borralheira. Uma vez para judial-a a madrasta lhe deu uma tarefa muito grande de algodão para fiar e lhe disse que n'aquelle dia devia ficar prompta. Maria tinha uma vaquinha, que sua mãe lhe tinha deixado; vendo-se assim tão atarefada, correu e foi ter com a vaquinha e lhe contou, chorando, os seus trabalhos.

A vaquinha lhe disse: «Não tem nada; traga o algodão que eu engulo, e quando botar fora é fiado e prompto em novellos.» Assim foi. Em quanto a vaquinha engulia o algodão, Maria estava brincando. Quando foi de