Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/126

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fallou a uma visinha no seu desgosto de estar casada com um corvo; a visinha aconselhou-lhe que lhe chammuscasse as pennas, porque podia ser obra de encantamento, e assim se quebraria. Quando á noite se foram os dois deitar, a rapariga chegou a candeia ás pennas do corvo; elle acordou logo, dando um grande berro:

— Ai, que me dobraste o meu encantamento! se me queres salvar, vae pôr-te áquella janella, e todos os passaros que vires, chama-os e pede-lhes assim: «Venham, passarinhos, venham despir-se para vestir el-rei que está nú.» De facto os passarinhos começaram a vir poisar na janella, e cada um deixava cair uma penna com que o corvo se foi cubrindo. Depois que ficou outra vez emplumado, o corvo bateu as azas, e desappareceu, dizendo para a mulher:


Agora se me quizeres tornar a vêr

Sapatos de ferro hasde romper.


A pobre rapariga ficou sosinha toda aquella noite, e logo que amanheceu foi comprar uns sapatos de ferro e metteu-se a correr o mundo. Tinha os sapatos quasi estragados de andar, quando encontrou um velho e lhe perguntou se não tinha visto um passaro. O velho respondeu:

— Eu venho da fonte da Madrepérola, onde estavam bastantes.

Ella continuou o seu caminho, e antes de chegar á fonte ali encontrou um corvo, que lhe disse:

— Olha, se quizeres salvar o rei, vae á fonte, onde estará uma lavadeira a lavar um vestido de pennas, tiralh’o e lava-o tu. Ao pé da fonte está uma casa, e um velho que a guarda; entra ahi, mata o velho para poderes quebrar todas as gaiolas e dar a liberdade aos passaros que elle tem lá presos.

A rapariga chegou á fonte, e fez como o corvo lhe ti-