Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/173

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Ficou Arranca-Pinheiros; veiu o moléquinho das botas vermelhas, furtou tudo e meijou-lhe na panella. Elle ainda correu atraz d’elle, mas vistel-o. Vieram os outros, mas só o Arrasa-Montanhas é que não queria acreditar. Ficou elle d’esta vez para fazer o cosinhado; mas como campava de esperto, aconteceu-lhe o mesmo. Disse agora o Bengala de dezeseis quintaes:

— Deixa-te estar, meu moléquinho, que quem te vae agarrar sou eu.

E tiraram a meza que estava em cima do alçapão, e viram um poço muito fundo e escuro lá para dentro. Elle mandou o Arranca-Pinheiros, que fosse buscar troncos de arvores e ramalhoças, que as torcesse e fizesse um calabre para um d’elles descer lá abaixo. Assim fez; quando estava tudo prompto, e o calabre chegava ao fundo do poço, disse o Bengala de dezeseis quintaes:

— Quem vae lá abaixo sou eu.

Desceu, desceu, e chegou ao fundo, emquanto os outros ficaram segurando na corda; lá em baixo era um grande alpendre com muitas portarias. Bateu a uma com a bengala, mas ninguem lhe respondeu; tornou a bater, e disse:

— Se não respondem, metto a parta dentro.

Fallaram de lá:

— Quem é que está ahi?

— É o Bengala de dezeseis quintaes; abra.

Abriram; era uma mulher que fazia de porteira:

— Oh homem, vae-te embora, que aqui mora a bicha de sete cabeças, que te encanta e nunca mais sais d’aqui.

— Deixa estar; com ella é que me eu quero.

Chega a bicha bufando toda assanhada:

— Aqui cheira-me a carne de gente.

Vae o Bengala de dezeseis quintaes, ferra-lhe tamanha estourada de meio a meio, que a deixou logo ali esborrachada. Á primeira gota de sangue que derramou desencantou-se a menina, e elle conheceu que era uma