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49. DESANDA CACHEIRA

Um pae tinha trez filhos, que foram pelo mundo correr sua ventura; tomou cada um para sua banda. O mais velho encontrou-se com um viandante, e foi conversando com elle; chegados lá muito longe o viandante disse:

— Paremos aqui para comer.

E desenrolou uma toalha que levava á cinta, dizendo: «Põe-te, meza!»

Logo ali appareceram muitos manjares e vinhos e coisas boas, e comeram ambos. Como era já lusco com fusco, a toalha fez-se em uma barraca, e ali passaram tambem a noite abrigados. Ao outro dia cortou cada um para o seu lado e não se tornaram a vêr. Ora o rapaz perdeu-se no caminho, e foi dar a um grande barrôco, e aconteceu ir encontrar o companheiro, dono da toalha, cercado de lobos, que trabalhavam para lhe chegar. Pôz os lobos em debandada com um pandeiro, e o viandante em paga de o ter salvado deu-lhe a toalha do encanto.

O rapaz voltou para casa, sem ter mais necessidade de trabalhar para comer.

O filho segundo não foi menos feliz; encontrou um velhinho, que ia tangendo uma burra e foi conversando com elle; chegando lá a uma encruzilhada separaram-se, e foi cada um para a sua banda. Mas ouvindo lá pela noite adiante uns gritos de afflicção foi-se chegando, e acertou de ir dar a um sitio onde estavam uns salteadores a maltratarem o velho para lhes dizer onde é que levava o dinheiro. O rapaz, que era valente, cahiu em cima dos ladrões, que fugiram, e assim livrou o velho. Este, agradecido, deu-lhe em paga a sua burra, dizendo:

— Quando tu lhe disseres: «Mija dinheiro», essa burra dá-te todo o dinheiro que quizeres.

Assim voltou para casa tanto ou mais rico do que o irmão.