Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/187

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— Não senhor; vivo com meu pae, que foi dar uma geira a quem não póde dar outra, e com dois irmãos, que foram vêr a ceara dos arrependidos.

O camponez não percebeu nada d’estas palavras e pediu-lhe a explicação.

— A explicação é clara; meu pae foi dar uma geira a quem não póde dar outra, quer dizer que foi acompanhar um morto á sepultura; os meus irmãos foram vêr a ceara dos arrependidos, porque se ella estiver boa, ficam arrependidos por a não terem semeado toda, e se estiver ruim tambem ficam arrependidos por terem semeado essa mesma.

O camponez seguiu o seu caminho muito satisfeito, até que chegou ao palacio. Pediu para o levarem á princeza, e contou-lhe o seu caso. A princeza deu-lhe logo a explicação de tudo. Depois virou-se de novo para o camponio, e disse-lhe:

— Já que és tão sabio, diz-me lá a razão, porque é que eu vivo sem comer, sem beber, nem dormir.

— Perdôe-me vossa alteza, mas eu não me fio n’isso.

— Pois então hasde ficar tres dias no meu quarto para vêres com os teus olhos.

O rapaz susteve-se o primeiro dia sem dormir para espreitar tudo o que se passava; custou-lhe muito a aguentar-se, e quando veiu o terceiro dia, disse:


Princeza, minha senhora,
Cá pr’a mim mulher que não come,
Nem bebe, nem dorme,
É filha do diabo, que não d’outro home.


Assim que a princeza ouviu isto foi ter com a mãe para que lhe explicasse o seu nascimento. A rainha contou-lhe tudo o que dissera quando o marido a tratava mal por não ter filhos; e assim que acabou de fallar sentiu-se no palacio um barulho como de um furacão que