Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/191

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O rapaz contou-lhe todo o acontecido; o ermitão teve compaixão d’elle, e disse:

— Já que tens de ir ao inferno, vae, mas sempre leva comtigo estas contas, porque antes de lá chegares tens de passar um rio escuro, e hade ser um passaro que te hade levar para o outro lado; e quando elle te quizer afundar no rio, joga-lhe as contas ao pescoço. D’aqui em diante não sei mais o que te succederá.

Assim aconteceu. Chegado ao inferno o rapaz teve um grande medo, e viu para ali um forno vasio e escondeu-se dentro d’elle. Quando estava todo agachado, passou uma velha muito velha e viu-o.

— O menino aqui! Ora coitadinho, que é tão lindo; se o meu filho o visse matava-o, com certeza. O que veiu cá fazer?

O rapaz contou tudo á mãe do diabo; a velha teve pena d’elle, e disse-lhe:

— Olhe; pois deixe-se ficar aqui escondido, porque eu não sei quando o meu filho virá; elle está assistindo á morte do padre santo, que está nas agonias, e quer-lhe apanhar a alma. O rapaz pediu á velha se sabia do diabo as perguntas de que trazia encommenda. Quando estavam n’estas conversas chegou o diabo bufando; a velha escondeu-o logo, e disse:

— Anda cá, filho, para descansares; deita-te aqui no meu collo.

O diabo deitou-se e ficou logo a dormir. A velha foi muito devagarinho com as unhas e arrancou-lhe um annel que tinha debaixo do braço. O diabo mecheu-se desesperado, gritando:

— Isto o que é?

— Ai, filho, fui eu que me deixei dormir, e dei uma pendedella em cima de ti. Estava a sonhar com aquelle rei que perdeu o annel, e que nunca mais o tornou a achar.

— Pois é verdade esse sonho, respondeu o diabo; está debaixo de uma lage ao pé do repuxo do jardim.