Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/201

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— Pois sim, ámanhã vou jantar á vossa casa.

No dia seguinte foi. A mulher do camareiro foi a ultima a sentar-se á mesa, e assim que se sentou, como havia mais de um anno que não comia com o marido, desatou a chorar. O rei perguntou-lhe porque é que ella chorava tanto. Ella respondeu:

Eu era amada do coração,
Hoje não o sou, nem sei porque não.

Respondeu o camareiro:

Quando eu na minha vinha entrei,
Rasto de ladrão achei.

Respondeu o rei:

Eu fui o tal ladrão
Que na tua vinha entrei;
Verdes parras arredei;
Lindos cachos de uvas vi;
Mas juro-te á fe de Rei
Que eu nas uvas nem buli.

O rei explicou como as verdes parras eram os cortinados de damasco, como vira os braços descobertos, e como se fôra embora tendo-lhe caído uma luva com a pressa. O camareiro ficou muito contente, percebeu os perigos da grande curiosidade, e nunca mais fechou a mulher, que na côrte era conhecida por todos como a mais linda, esperta e honrada.

(Algarve.)




60. O PALMEIRIZ D'OLIVA

Um lavrador e a sua mulher tinham um grande desgosto por lhe morrer o unico filho; quando o lavrador ia caminho da cidade, passando ao pé de uma palmeira que