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Foi o que ganhou o João Ratão, deixando-se de carvoeiro para ser adivinhão.

(Coimbra.)


73. OS TREZ IRMÃOS

Um homem tinha trez filhos, um seu e dois que a mulher lhe mettera em casa. O pae puchava para o seu filho, e a mulher puchava para os outros dois, e cada um promettera que havia de deixar os bens áquelle a quem mais amava. É certo que morreram sem testamento, e os trez irmãos não sabendo para quem ficariam os bens da casa, resolveram ir á cidade consultar um letrado. Quando iam pelo caminho, encontraram um homem muito azafamado, que lhes perguntou:

— Oh patrõesinhos, viram passar por aqui a minha burra?

Os trez irmãos disseram que não tinham visto, e puzeram-se a rir entre si, dizendo:

— Elle não era burra, era uma mula, e por signal que tinha o rabo torto; e ainda para mais era cega de um olho.

O homem pescou o que elles diziam, e como era possante, gritou:

— Ah, grandes birbantes, que me hãode dar já para aqui conta da minha mula. Era essa mesma que vocês dizem que não viram.

Travaram-se de razões e lá foram todos para a cidade á presença do juiz. O homem fez a sua queixa, e o juiz certo de que os homens sabiam onde estava a mula disse que o declarassem:

— Saberá, senhor juiz, que não vimos mula nenhuma; este homem perguntou-nos se tinhamos visto passar por ali uma burra, e dissemos que não, porque o que tinha passado era uma mula.

Disse o juiz: