Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/220

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— Então como sabeis isso, se a não vistes?

— É porque no chão estavam umas pégadas, em que os pés se botavam adiante das mãos, e assim é que andam as mulas, e isso era signal de ter por ali passado uma.

— E como sabeis que tinha o rabo torto, se é que a não vistes?

— Saberá o senhor juiz que era por um campo de cevada, que ainda estava orvalhado, e para a banda para onde a mula tinha o rabo torto já o orvalho estava saccudido.

— Está bem; mas como sabéis que a mula era cega de um olho?

— É porque pelo trilho que ella levava estava a cevada comida só de um lado; signal de que ella via só por um olho.

O juiz mandou os trez irmãos embora, e condemnou nas custas o dono da mula.

N'isto os trez irmãos requereram ao juiz sobre o caso que os trazia á cidade para a partilha da herança. O juiz vendo que eram tão espertos e que não se entendiam, disse-lhes:

— Vinde ámanhã a minha casa, que vos quero dar uma lebre guisada para o almoço, e então darei a sentença.

Os trez irmãos foram ao outro dia muito contentes; o juiz mandou-os sentar á meza, e veiu a lebre guisada; elles comeram e lamberam o beiço.

— Então que tal é a lebre?

Diz-lhe d'ali um dos irmãos:

— Ella não é lebre, é cão.

— Então como sabeis isso?

— É porque botei um osso ao cão cá da casa, e elle não o quiz roer, porque é certo que os cães não se comem uns aos outros.

O juiz confessou que era verdade, e disse:

— Pois dou por sentença que hade ficar com a he- 11