Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/221

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rança o que fôr capaz de ir á sepultura do pae cravar-lhe uma faca nos peitos.

Disseram os dois mais novos:

— Vou eu, vou eu!

O mais velho, espantado, exclamou:

— Já não quero os bens; eu sou lá capaz d'isso?

Então o juiz disse que aquelle é que era o verdadeiro filho, e escreveu a sentença a favor d'elle.

(Airão.)




74. AS BARRAS DE OURO

Trez irmãos estavam n'um monte fazendo carvão, e cada um guardava a borralheira, para que se não apagasse emquanto os outros dormiam. Coube a vez ao mais moço; mas não sei lá porque, elle descuidou-se e apagou-se a borralheira. Ficou muito apoquentado, e antes que os irmãos acordassem procurou modo de tornar a acender o fogo; viu lá longe uma luzinha, e lembrou-se de ir lá pedir fogo. Foi, andou, andou, até que chegou ao pé de uma grande borralheira em que estavam uns homens muito negros a fazer carvão. Pediu se lhe davam algumas brazas, que era para acender a sua borralheira, que se lhe tinha apagado, e vae elles disseram com má cara:

— Tire d'ahi um tição e leve-o.

O rapaz tirou o tição e botou a correr; ia para acender a sua borralheira, mas o tição apagou-se, e deitou-o para a banda. Tornou outra vez lá a pedir outro tição; disseram-lhe com a mesma catadura:

— Tire d'ahi um tição e leve-o.

Aconteceu o mesmo, apagou-se; teve coragem de tornar outra vez a ir pedir aos carvoeiros, e elles sempre lhe deram um tição, que se apagou como os outros dois. N'isto ia amanhecendo, os irmãos acordaram, e o rapaz