Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/232

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— Então n'esse caso vás commandar as minhas tropas, e atacar os inimigos que já me estão cercando.

Mandou vir o fardamento de Dom Caio e fel-o vestir ao alfaiate, que era muito baixinho, e que ficou com o chapeu de bicos enterrado até ás orelhas; depois disse que trouxessem o cavallo branco de Dom Caio para o alfaiate montar. Ajudaram-no a subir para o cavallo, e elle já estava a tremer como varas verdes; assim que o cavallo sentiu as esporas botou á desfilada, e o alfaiate a gritar:

— Eu caio, eu caio!

Todos os que o ouviam por onde elle passava, diziam:

— Elle agora diz que é o Dom Caio; já temos homem.

O cavallo que andava costumado ás escaramuças, correu para o sitio em que andava a guerreia, e o alfaiate com medo de cahir ia agarrado ás clinas, a gritar como desesperado:

— Eu caio, eu caio!

O inimigo assim que viu vir o cavallo branco do general valente, e ouviu o grito: «Eu caio, eu caio!» conheceu o perigo em que estava e disseram os soldados uns para os outros:

— Estamos perdidos, que lá vem o Dom Caio; lá vem o Dom Caio.

E botaram a fugir á debandada; os soldados do rei foram-lhe no encalço e mataram n'elles, e o alfaiate ganhou assim a batalha só em agarrar-se ao pescoço do cavallo e em gritar: «Eu caio.» O rei ficou muito contente com elle, e em paga da victoria deu-lhe a princeza em casamento, e ninguem fazia senão louvar o successor de Dom Caio pela sua coragem.

(Porto.)