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83. A MULHER GULOSA

Um homem tinha casado com uma mulher muito lambareira, mas que fingia que nunca tinha vontade de comer; elle desconfiado espreitava-a, e veiu a conhecer que ella não fazia senão comer petiscos. Um dia elle sahiu de casa, dizendo-lhe que não vinha senão á noite, e escondeu-se no forno. A mulher como se achou só, cantou e foi arranjar um almoço de gulodices, que eram formigos de pão esfarelado com mel e ovos. Quando chegou a hora do jantar guisou uma grande pratada de migas, e comeu e lambeu-lhe o beiço. Ao fim da tarde, ainda não era bem lusconfusco, tornou a accender o lume e ensopou dois franguinhos para a ceia. O marido viu-lhe comer tudo aquillo, e esteve sempre calado, até que quando lhe pareceu sahiu do seu esconderijo, e fingiu que entrava em casa como quem vinha de muito longe. Ora o dia esteve sempre de chuva, e o homem vinha enxuto como as palhas; a mulher lá ficou admirada, e disse:

— Oh homem, com este dia de agua como vens tão enxuto! Onde é que estiveste?

Elle respondeu:

Chovia miudinho
Como os formigos que almoçaste;
Se chovesse graúdinho
Como as migas que jantaste,
Eu viria ensopadinho
Como os frangos que ceiaste.

A mulher conheceu que já não enganava o marido, que se serviu d'este pé de cantiga para lhe repinicar o pandeiro.

(Porto.)