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93. SEMPRE NÃO

Um cavalleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de ir fazer uma longa jornada; receiando não acontecesse algum caso desagradavel emquanto estivesse ausente, fez com que a mulher lhe promettesse, que emquanto elle estivesse fóra de casa diria a tudo: — Não. Assim pensava o cavalleiro que resguardaria o seu castello do atrevimento dos pagens ou de qualquer aventureiro que por ali passasse. O cavalleiro já havia muito que se demorava na côrte, e a mulher aborrecida na solidão do castello não tinha outra distracção senão passar as tardes a olhar para longe, da torre do miradouro. Um dia passou um cavalleiro, todo galante, e comprimentou a dama; ella fez-lhe a sua mesura. O cavalleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo ali uma grande paixão, e disse:

— Senhora de toda a formosura, consentis que descance esta noite no vosso solar?

Ella respondeu:

— Não!

O cavalleiro ficou um pouco admirado da secura d'aquelle não, e continuou:

— Pois quereis que seja comido dos lobos ao atravessar a serra?

Ella respondeu:

— Não.

Mais pasmado ficou o cavalleiro com aquella mudança, e insistiu:

— E quereis que vá cahir nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta?

Ella respondeu:

— Não.

Começou o cavalleiro a comprehender que aquelle Não seria tal vez sermão encommendado, e virou as suas perguntas: