Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/249

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— Então fechaes-me o vosso castello?

Ella respondeu:

— Não.

— Recusaes que pernoite aqui?

— Não.

Diante d'estas respostas o cavalleiro entrou no castello, e foi conversar com a dama, e a tudo o que lhe dizia ella foi sempre respondendo não. Quando no fim do serão se despediam para se recolherem a suas camaras, disse o cavalleiro:

— Consentis que eu fique longe de vós?

Ella respondeu:

— Não.

— E que me retire do vosso quarto?

— Não.

E assim correram as cousas, até que ao dia seguinte, perguntou o cavalleiro:

— Ordenaes que fique mais tempo comvosco?

Ella respondeu:

— Não.

O cavalleiro partiu, e chegou á côrte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro, e contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a historia do Não; mas quando ia já a contar o modo como se mettera na cama da castellã, o marido já sem ter mão em si, perguntou agoniado:

— Mas onde foi isso, cavalleiro?

O outro percebeu a afflicção do marido e continuou sereno:

— Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete, sinto um grande solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se-me um sonho tão lindo.

O marido respirou alliviado, mas de todas as historias foi aquella a mais estimada.

(Açores.)