Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/258

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nhos aos gritos da mulher, que fingia que se lamentava. Assim que entraram no quarto, o velho ainda fallava, mas só dizia o resto das phrases que tinha ouvido:

— Tudo… a minha mulher… Come… Tudo a minha mulher.

Disse ella para os visinhos:

— Sejam boas testemunhas, que meu marido diz que deixa tudo á sua mulher.

O velho morreu com a bocca retorcida, e a mulher levantou-se com tudo o que havia em casa, e os parentes do velho ficaram a chuchar no dedo.

(Porto.)




100. OS TREZ CONSELHOS

Um pobre rapaz tinha casado, e para arranjar a sua vida logo ao fim do primeiro anno teve de ir servir uns patrões muito longe. Elle era assim bom homem, e pediu ao amo que lhe fosse guardando na mão o dinheiro das soldadas. Ao fim de uns quatro annos já tinha um par de moedas, que lhe chegava para comprar um eidico, e quiz voltar para casa. O patrão disse-lhe:

— Qual queres, trez bons conselhos que te hãode servir para toda a vida, ou o teu dinheiro?

— Elle, o dinheiro é sangue, como diz o outro.

— Mas podem roubar-t'o pelo caminho e matarem-te.

— Pois então venham de lá os conselhos.

Disse-lhe o patrão:

— O primeiro conselho que te dou é que nunca te mettas por atalho, podendo andar pela estrada real.

— Cá me fica para meu governo.

— O segundo, é que nunca pernoites em casa de homem velho casado com mulher nova. Agora o terceiro vem a ser: Nunca te decidas pelas primeiras apparencias.