Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/262

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— Então levantam-se as casas, e fazem-se de sobrado, e depois arranjo a officina toda pintadinha.

— Isso não tem nada com a obra; o melhor era comprarmos uns campinhos; eu sou filha de lavrador e pucha-me o corpo para o campo.

— N'essa não caio eu.

— Pois o que me faz conta é ter terra; tudo o mais é vento.

As cousas foram-se azedando, palavra pucha palavra, o homem zanga-se, atiça duas solhas na mulher, berreiro de uma banda, berreiro de outra, n'aquella noite não pregaram olho. O visinho ricaço, reparava em tudo, e não sabia explicar aquella mudança. Por fim o sapateiro disse á mulher:

— Sabes que mais, o dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria! O melhor era ir leval-o outra vez ao visinho d'ali defronte, e que nos deixe cá com aquella pobreza que nos fazia amigos um do outro.

A mulher abraçou aquillo com ambas as mãos, e o sapateiro com vontade de recobrar a sua alegria e a da mulher e dos filhos, foi entregar o dinheiro e voltou para a sua tripeça a cantar e trabalhar como o costume.

(Porto.)




103. O SIGNAL DA NOBREZA

Chegou-se um pobre ao pé de um individuo que parecia aceiado, e reparando-lhe para o pescoço, disse:

— Dê-me licença de lhe tirar uma pulga.

O outro consentiu, e assim que viu a pulga, metteu a mão na algibeira e deu um pinto ao pobre em recompensa.

Um outro pobre que observou o acontecido, entendeu para si que se elle dava um pinto a quem lhe tirava uma pulga, o que não daria a quem lhe achasse um piolho.