Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/263

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Aproximou-se tambem do individuo, e disse:

— Dê-me licença, o senhor, de lhe tirar um piolho do casaco.

De facto tirou-lhe um piolho, mas o homem não lhe deu nada, e repelliu-o.

— Então o senhor dá um pinto a quem lhe tira uma pulga, e escorraça quem lhe cata um piolho?

— É verdade; você fique sabendo que as pulgas são dos cães, e os piolhos dos fidalgos.

E foi-se andando como quem estava certo da sua nobreza.

(Sardoal.)




104. A ESTATUA QUE COME

Havia n'uma egreja uma estatua de marmore que estava com a bocca aberta. Uns homens começaram a fallar ao pé d'ella, e disse um:

— Está ha tantos annos com a bocca aberta, sem ninguem lhe dar de comer.

— Pois se ella quizer de comer, que venha á minha casa.

Ora o que disse isto era muito pobre; á noite quando chegou a casa, bateram-lhe á porta, e era a estatua, que dizia que estava ali para ceiar com elle. O homem atrapalhou-se alguma coisa, e respondeu-lhe a verdade, que não tinha que ceiar, porque era muito pobre:

— Pois vae pedir por esse mundo, até teres que me dar a comer.

Dizendo isto, a estatua foi-se embora, e o pobre homem não pôde mais ficar socegado e foi pedir por esse mundo. Passado muito tempo estava rico, e veiu outra vez á sua terra, procurou a sua casa, e viu outras no seu logar, e todos lhe diziam que já se não lembravam de se terem feito obras n'aquelle local. Foi á egreja e viu ainda