Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/264

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lá a estatua que tinha convidado, e quando se foi chegando para ella, viu-lhe ainda a bocca aberta, e pensou comsigo:

— Eu convidei-a ha tanto tempo, que ella já não me conhece.

E aproximando-se mais, ouviu a estatua dizer:

— Bem te conheço, e agora que estás rico é que virás ceiar commigo.

E cahiu-lhe em cima, e matou-o.

(Sardoal.)




105. AS ADIVINHAS EM ANEXINS

Um rei quiz experimentar o juizo de trez conselheiros que tinha, e indo a passear com elles encontrou um velho a trabalhar n'um campo, e saudou-o:

— Muita neve vae na serra!

Respondeu o velho com a cara alegre:

— Já, senhor, é tempo d'ella.

Os conselheiros ficaram a olhar uns para os outros, porque era verão, e não percebiam o que o velho e o rei queriam dizer na sua. O rei fez-lhe outra pergunta:

— Quantas vezes te ardeu a casa?

— Já, senhor, por duas vezes.

— E quantas contas ser depennado?

— Ainda me faltam trez vezes.

Mais pasmados ficaram os conselheiros; o rei disse para o velho:

— Pois se cá te vierem trez patos, depenna-os tu.

— Depennarei, real senhor, porque assim o manda.

O rei seguiu seu caminho a mofar da sabedoria dos conselheiros, e que os ia despedir do seu serviço se lhe não soubessem explicar a conversa que tivera com o velho. Elles, querendo campar por espertos, foram ter com o velho para explicar a conversa; o velho respondeu: