Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/265

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— Explico tudo, mas só se se despirem e me derem a roupa e o dinheiro que trazem:

Não tiveram outro remedio senão obedecer; o velho disse:

— Olhem: «Muita neve vae na serra», é porque eu estou cheio de cabellos brancos; «já é tempo d'ella», é porque tenho edade para isso. «Quantas vezes me ardeu a casa?» é porque diz lá o dictado: «Quantas vezes te ardeu a casa? Quantas casei a filha.» E como já casei duas filhas sei o que isso custa. «E quantas vezes conto ser depennado ?» é que ainda tenho trez filhas solteiras e lá diz o outro:

Quem casa filha
Depennado fica.

Agora os trez patos que me mandou o rei são vossas mercês, que se despiram e me deram os fatos para explicar-lhes tudo.

Os conselheiros do rei iam-se zangando, quando o rei appareceu, e disse que se elles quizessem voltar para o palacio vestidos que se haviam ali obrigar a darem trez dotes bons para o casamento das outras trez filhas do velho lavrador.

(Porto.)




106. A MULHER TEIMOSA

Um homem era casado com uma mulher tão teimosa, que já a não podia aturar; uma vez trouxe para casa um queijo, e puzeram-se ambos á mesa para jantar. Foram para partir o queijo, e disse o homem que era preciso uma faca. A mulher, teimosa, começou a porfiar que o queijo se partia com a tesoura. Teimam que teimam, o homem pega a bater na mulher, e a perguntar:

— Com que se parte o queijo?