Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/27

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do-se na corrente oral que apenas conserva a conclusão ou moralidade do Anexim. A fabula, depois da Metaphora, é a fórma a mais rudimentar do conto; nasce d’esse estado mental subjectivo, e d’esse sentimento religioso do animismo em que se dá falla ás cousas inanimadas como as pedras; esta faculdade subsiste ainda nos processos rhetoricos da prosopopêa, e na imprecação espontanea do povo. Nos habitos populares aquelle que descreve reduz tudo á fórma de narrativa dialogada, e o que escuta muitas vezes confunde a expressão concreta da figura de linguagem com uma realidade. É frequente nos contos populares a antropophagia; e os poderes magicos de pedras, de plantas e de animaes representam um estado mental a que corresponde na religião o periodo fetichista. É este o verdadeiro ponto de partida para a investigação da origem dos contos; os mythos sideraes ou solares correspondem já a um elevado estado mental em que predominam as concepções polytheistas, em que as forças da natureza se antropomorphisam, e por isso os Contos não podem ser exclusivamente interpretados por um systema de concepções mais adiantadas do que muitas das situações que encerram. Nos contos ha o conflicto de sêres malévolos, elemento preponderante na credulidade fetichista, e os poderes magicos são um caracteristico de cultos decahidos e de raças escravisadas, que jâ se não encontram nas epopêas polytheistas. A concepção de Augusto Comte sobre a successão dos periodos religiosos da humanidade, começando pelo fetichismo, elevando-se ao polytheismo e depois ao monotheismo, tendo a vantagem de coordenar a evolução do espirito partindo das noções concretas para as ideias abstractas, coadjuva immensamente a achar o nexo entre estas creações ideaes, mas inteiramente subjectivas dos Contos.[1] Grandes

  1. No Curso de Philosophia positiva, t. v, p. 25, Augusto Comte caracterisa o Fetichismo: «pelo impulso livre e directo da nossa tendencia primitiva a conceber todos os corpos exteriores quaesquer, naturaes ou artificiaes, como animados de uma vida essencialmente analoga á nossa, com as simples differenças mutuas de intensidade.» E mais adiante: «os primeiros ensaios de todas as bellas-artes sem exceptuarmos a poesia, remontam incontestavelmente até á edade do fetichismo.» (Ib., p. 51.)