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INTRODUCÇÃO

ram a influir na imaginação popular pelo emprego da parabola na prédica religiosa e do exemplo na doutrinação concreta da moral. A universalidade dos Contos populares na tradição oral não se póde explicar historicamente; este processo compete aos Contos generalisados pela fórma litteraria, cuja transmissão se estabelece quasi de um modo chronologico e por documentos que subsistem. Huet, Sacy, Loiseleur des Longchamps, Benfey e Max-Müller, segundo os recursos da sciencia da sua epoca, fixaram os caminhos diversos por onde os Contos do Oriente fizeram a sua migração para a Europa. Provenientes de collecções litterarias, de que a mais antiga conhecida é o Pantchatantra, elles acompanham os accidentes da historia da civilisação da Europa, implantando-se no Occidente com as invasões dos Arabes, propagando-se com os ultimos lampejos do hellenismo, sendo o assumpto de redacção dos novos dialectos romanicos e dos prégadores catholicos da Edade media. A Egreja afastando os povos da Europa do contacto da civilisação greco-romana, aproveitou-se d'este fundo tradicional para actuar sobre a imaginação da gente rude, e assim as litteraturas começaram o seu desenvolvimento sobre uma base e com um destino popular. A redacção litteraria dos Contos e fabulas indianas foi provocada pela profunda revolução religiosa do Buddhismo, que batendo as abstracções metaphysicas da casta sacerdotal brahmanica e procurando os seus proselytos entre as raças inferiores e amarellas, teve de propagar-se pela exposição pittoresca dos Contos; onde quer que o Buddhismo se divulgou, ahi encontram-se os Contos como meio de propaganda. As collecções da China, como os Avadanas, e as do Thibet, resultaram d'essa crise religiosa; no rarissimo livro das Cartas do Japão (fl. 99 v.) se lê: «Ha y mais duas Seitas, que chamam Iexu e Muraçaqui. Estes são dados a meditações, tem somma d'ellas de cousas como fabulas e comparações.» Na lucta do Christianismo contra