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LITTERATURA DOS CONTOS POPULARES

A Dita e a Formosura,
Dizem patranhas antigas,
Que pelejaram um dia,
Sendo de antes mui amigas.

Jorge Ferreira de Vasconcellos, na comedia Ulyssipo, refere-se ao conto da Cendrilhon: «Pois eu tambem não quero Gatas borralheiras[1] E em Soropita: «Se não quando, fallando com referencia, appareceram por prôa as Tres Cidras do Amor[2] Gil Vicente, além do conto da Bilha de leite, traz no Auto da Floresta de enganos, a scena do Doutor Justiça Mayor, que se acha como conto nas Cem Novellas novas, n.º XVII. Em Sá de Miranda abundam as fabulas e contos, que revelam o gráo de consciencia que elle tinha do elemento tradicional na litteratura: taes são as fabulas do Rato do campo e o rato da cidade, a Chuva de maio, o Cavallo que se deixa enfreiar para vingar-se, a dos Membros e o estomago, o Mosquito e a têa de aranha, o Parto da montanha, a facecia de Diogenes, a anedocta de Apellos, o conto de Psyche, e a Cigarra e a formiga. Camões tambem descreve o costume dos nossos marinheiros, que historias mil recontam e casos referem, para se distrahirem do somno. Foi no seculo XVI que o Conto recebeu a fórma litteraria, dada por Gonçalo Fernandes Trancoso.[3] Antes de fallarmos da sua collecção, importa definir as relações com os novellistas italianos e francezes da grande epoca da Renascença ou que n'este tempo foram lidos em Portugal. Pelos Indices expurgatorios conhece-se a corrente da leitura dos livros de Novellas; no Index de 1564 prohibe-se «Boccacio, Decades, seu novella centum.» (Fl. 16, v.); esta collecção appa-

  1. Op., fl. 14 e 32.
  2. Poesias e Prosas, p. 103.
  3. Os contos de Trancoso tornaram-se typos do genero: «Finalmente para prova do que tem dito, conta dois casos, que me parecem de Trancoso.» Frei Arsenio da Piedade, Reflex. apologeticas, p. 34.