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INTRODUCÇÃO

pensa, desde que cessou a peste: «e assim eu, ainda que tenho desejo de escrever este mez trinta historias, as ditas para desenfadamento…» A perda de quasi toda a sua familia, mulher, filhos e a falta de lições, obrigaram-o durante a tremenda crise a esses exercicios de desenfado, para se não deixar cahir em desfallecimento.

Na primeira edição dos Contos proveitosos, de 1575, de que conhecemos um exemplar unico, ignorado dos bibliographos, vem uma Carta á Rainha D. Catharina, regente de Portugal e viuva de D. João III, onde se descreve o desastre da Peste grande; n'essa Carta narra Trancoso, que lhe morrera em casa sua mulher, uma filha mais velha de vinte e quatro annos, um filho estudante e um outro filho que era menino do côro. Sob o peso da sua desgraça é que foi escrevendo os Contos; pela Carta á Rainha infere-se que Trancoso casára pouco antes de 1544; as suas relações com a Rainha, extremamente severa, dão-nos o sentido da allusão á morte do principe D. João, pae de D. Sebastião, e por ventura auctorisam a crêr que Trancoso fôra mestre de lêr no paço.

A determinação de alguns paradigmas de Trancoso, e o confronto com contos populares ainda existentes, prova-nos que elle se apropriou dos themas tradicionaes mais correntes na litteratura do seu tempo.[1] A collecção de Trancoso compõe-se de trez partes, que ficaram interrompidas pela morte do auctor; a primeira parte deve fixar-se por 1544, talvez impressa separadamente, em vista de uma edição desconhecida citada por Brunet; a segunda parte redigida em 1569 imprimiu-se em 1575, reimprimindo-se ainda em vida de Trancoso em 1585; a terceira parte, não continuada, appareceu depois da morte do auctor, publicada por seu filho Antonio Fernandes em 1596. Por uma edição que possuimos, do meado do

  1. Vid. um estudo comparativo do conto XV, da Parte I, na Harpa, e na Revista de Ethnologia e de Glottologia.