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LITTERATURA DOS CONTOS POPULARES

seculo XVII conhecem-se as relações litterarias de Trancoso com o poeta Luiz Brochado, o auctor das Trovas do Moleyro. Os Contos tiveram numerosas edições nos seculos XVII e XVIII, e foram immensamente apreciados pelo povo, apparecendo citados proverbialmente nas comedias de cordel e em Filinto Elysio. Quando outras leituras se apoderaram do gosto do nosso povo, é que os Contos de Trancoso deixaram de reimprimir-se.

A inspiração tradicional que levantou a epoca dos Quinhentistas, ainda se continuou no seculo XVII nos excellentes poetas D. Francisco Manuel de Mello, e Rodrigues Lobo. Nas suas Cartas, escreve D. Francisco Manuel: «E cuida que virey a ser aquella:

Dona atrevida,
Doce na morte
E agra na vida,

que nos contam quando pequenos.»[1] Este conto ainda vive na tradição popular portugueza. Nos seus Relogios fallantes refere-se ao conto de Pedro de Malas-Artes. Nos Apologos dialogaes allude: «ou como a historia do Salsinha, em que não haveis de dizer sim nem não…»[2] Ainda existe este typo de conto, em que se não diz sim nem não, ou a que se accrescenta sempre e eu tambem. Na mesma obra refere-se ás trovas de Maria Castanha, (p. 341) que encontrámos já no começo do seculo XVI citadas no romance piccaresco hespanhol da Lozana andaluza (p. 192). Na Feira d'Anexins cita D. Francisco Manoel os Contos da Carochinha: «— Espere; contar-lhe-hei uma historia. — A da Carochinha? — Não! buscára outra mais cara, que essa é muito barata? — Pois digo-lhe que

  1. Cartas, p. 671 (1649). Aqui tambem allude ao conto dos Frangãos e do Milhafre (p. 215).
  2. Op. cit., p. 260.