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sericordia que o homem ama muy pouco em quanto vive, en pero aa hora da morte, aparece com elle aquelle bem que faz ante Deus pollo esforçar e pollo tirar do inferno e por lhe gançar coroa de vida.

(Ms. da Livraria de Alcobaça n.º 266, fl. 147 e 148. Do seculo XIV. Na Bibl. publica de Lisboa. Vid J. Cornu, Vieux Textes portugais, p. 28.)




132. EXEMPLO ALLEGORICO
DA REDEMPÇÃO

Huũ homem passou per acerqua de hum edificio muy fremoso en o qual eram todalas cousas que pertenciam pera deleitaçom. E achou trees donzellas estar chorando acerqua dos ryos que sayam daquel castello, porque a senhora do castello estava tam enferma que era chegada aa morte. E disselhe aquel homem carninheyro:

— Ha esperança de vida em vossa senhora.

E as donzellas responderam:

— Os fisicos desesperaram da sua vida; mais ella espera continuadamente hum de hum Rey que ha em sy tres condições muy nobres. s. elle he muy fremoso e grande fisico e he virgem.

E disselhe o mancebo:

— Eu soõ esse que ella espera que hey todas essas cousas muy compridamente.

E entom levaram aquellas donzellas aquelle mancebo ao castello muy cortezmente. E a senhora do castello o recebeu muy bem, e com grande reverença. E elle começou a fazer sua cura e suas meezinhas aa senhora do castello. E fez um banho de sangue do seu proprio braço deestro, que fez sair, e pozse a senhora em aquelle banho. E tanta foy a virtude d'aquel sangue muy casto, que