Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/331

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— Eu te farey justiça depois que veer.

Respondeu a viuva:

— E se tu morreres en a batalha quem me fará justiça?

E disse-lhe o emperador:

— Aquell que reynar depos my.

E disse a viuva:

— E que aproveytará a ti se outrem fizer justiça?

E o emperador respondeu:

— Certamente nom me aproveytava nenhuma cousa.

E disse a viuva:

— E pois nom he milhor que tu me faças justiça e ajas ende o gualardom ca o leixares a outrem.

E entom decendeo o emperador do cavallo com piedade, e fez aly justiça da morte d'aquel filho da viuva. E outrossy aconteceu huma, que o filho deste emperador Trajano hya correndo pella villa em hum cavallo e per aqueecimento sem seu grado, matou hum filho de huma viuva, e ella queyxouse ao emperador chorando. E o emperador deu entom aquelle seu filho em logo d'aquelle que lhe matara e deulhe muyto aver com elle.

(Op. cit., Fl. 20.)




134. A MORTE DOS AVARENTOS

Hum avarento jazia muy mal enfermo pera morte.

Este homem avia muytas riquezas e nunca se aproveitava dellas nem tanto a deus, nem quanto ao mundo, nem pera seu corpo. E jazendo assy chegado aa morte, sua molher entendendo que nom avia em elle vida, chamou huma sua servente e disselhe:

— Vay tostemente e compra tres varas de burel pera envolvermos meu marido em que o soterrem.