Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/34

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ctual em que nos apparecem as raças áricas antes de se elevarem ás noções scientificas que caracterisam a civilisação greco-romana, e que lhes deram a hegemonia da humanidade.

Tanto nas raças amarellas, como entre a cananêa ou kuschito-semita, o fetichismo foi exclusivo, e d’ahi o caracter concreto e activo da sua civilisação, immobilisada no imperativo das ideias moraes. As fabulas das cousas e dos animaes destinadas pela sua comparacão á inferencia de uma ideia moral, tornaram-se uma fórma litteraria, quer com um caracter philosophico como o Apologo, ou com um sentido religioso como a Parabola. Em sociedades que nunca se elevaram acima da constituição patriarchal, e em que a familia se dissolvia na tribu, as narrações fictícias tornavam-se uma necessidade da communhão moral, e isto mesmo vêmos nos costumes dos arabes, o ramo semita mais retardatario, que tinha os seus rawi ou narradores na epoca em que as tribus não estavam ainda unificadas pelo islamismo, e adoravam os seus fetiches, de que a pedra negra da Caba se tornou o principal. É a um elemento negroide ou kuschita que se deve attribuir esta persistencia de elementos tradicionaes entre os Semitas; no livro dos Reis, se lê da actividade especulativa de Salomão: «E elle tratou de todas as arvores, desde o cedro que cresce sobre o Libano até ao pequeno hysope que cresce nas paredes; e elle tratou dos quadrupedes, das aves, dos reptis e dos peixes.» Renan entende a natureza d’este saber como «moralidades tiradas dos animaes e das plantas, analogas áquellas que nós lemos nos Proverbios (cap. XXX) e ás do Physiologus, que foram tão populares na edade media». [1] A proveniencia d’este movimento intellectual que se não continuou em Israel, é attribuida pelo mesmo semitologo ao elemento idumeu: «A Iduméa sobretudo, parece ter con-

  1. Histoire générale des Langues semitiques, pag. 129.