Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/344

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devotamente aa beenta virgem adormeçeo. E a beenta virgem tomou semelhança daquella dona em todo e foysse fóra da egreja e cavalgou en o cavallo da dona. E foysse com o cavaleyro, pensando elle que era sua molher. E quando chegarom a o loguar veo logo o diabo tostemente. E quando perto delles nom se ousou cheguar, mais começou de tremer e aver grande pavor e asanharse. E disse ao cavaleyro:

— Oo falso e muy desleal cavaleyro porque me fezeste tam grande escarnho e me fezeste tanto mal por muytos beens que te eu figi, tu me prometeste que me trarias tua molher e trouveste Maria. Ca eu me quisera vinguar da tua molher por muytas enjurias que me faz, e tu trouvesteme esta que me atormenta gravemente e me lança en o abisso do inferno.

Quando esto ouvyo o cavalleyro ficou muy espantado e maravilhado, e com temor nom pode falar. E a beenta virgem disse ao diabo:

— Qual foy a tua ousança e o teu maao atrevimento que presumias empeecer aa minha devota! mas nom escaparás assy sem pena, ca eu te mando que logo descendas aos abissos do inferno e que daqui em diante nom empeças a nenhuuma pessoa que me chamar com devoção.

Quando esto ouvio o diaboo, partiuse logo dally tostemente huyvando e fazendo grande doo. E o cavaleyro deçeosse do cavallo e lançouse em terra aos pees da beenta virgem. E esta o reprendeo do que fezera e mandoulhe que sse tornasse pera sua molher que acharia dormindo en a egreja e que lançasse de ssy aquellas riquezas que ouverom pollo diaboo. E a beenta virgem desapareceo. E o cavaleyro tornouse a egreja e espertou sua molher que jazia dormindo e contoulhe todo quanto lhe acontecera. E foramsse pera sua casa e lançarom de ssy todo aquelle aver que ouverom pollo diaboo. E perseverarom em louvores e em serviço da beenta virgem