Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/354

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— Já que me quereis matar, tiremos primeiro ambos uma lagea que tenho sobre minha sepultura, e, morto, lançar-me-has dentro sem muito trabalho.

Elle o acceitou, e assi foram ambos érguer a lagea; porém como o salteador trabalhava quanto podia por erguel-a, assi trabalhava o padre Ermitão por que não se erguesse, e d’esta maneira ambos não faziam mudança na lagea. Attentou o salteador no caso, e disse assi:

— E se vós não ajudaes como posso eu só erguel-a? que ainda que eu ergo da minha parte, vós fazeis da vossa com que não aproveite o que faço.

Antes que passasse adiante disse o padre Ermitão:

— Vês ahi, irmão, o que te eu digo. Que me presta a mi rogar a Deus por ti, pedindo-lhe que te tire do peccado e máo officio que trazes, se tu não te queres tirar e estás muito de proposito perseverando n’elle?

(Historias de proveito e Exemplo, de Gonçalo Fernandes Trancoso. Parte I, conto 1.º)


152. D’AQUELLAS SETE AO DIA

Uma virtuosa dona de boa vida tinha uma filha de tão má inclinação que não queria tomar os nobres conselhos da mãe, nem aprendia seus louvados costumes; mas em tudo seguia seu proprio parecer sem obediencia de pessoa alguma, nem correição de visinha nem parenta, porque era preguiçosa, golosa, andeja, muito falladeira e de outras feias manhas. A mãe, como mãe, desejosa de seu bem e de lhe dar marido, determinou dar a um mancebo tudo o que a pobre velha tinha por que casasse com a filha. E concertada com elle no dote, quiz o mancebo que não dessem conta á moça até que elle a fosse vêr o