Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/357

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eschola de dança, a que o mancebo era inclinado, e a estas horas dançavam, e ao passar pela porta da eschola fez uma pequena detença; mas a donzella, que não tinha sua imaginação senão no caminho que levava, andava pela rua tão baixo o rosto que o não erguia. Foi vista por um nobre mancebo, que a seguiu, e poz-se-lhe diante fingindo ser seu escudeiro, encaminhou-a pera sua casa; e ella, quando ergueu o rosto, crendo ser seu irmão lhe disse:

— Tão longe é isto!

Elle ainda que entendeu, não lhe respondeu nada; e dissimulado se metteu em sua propria casa, dizendo:

— Aqui é.

E como a teve bem dentro, fez cerrar a porta, e mostrou-se-lhe, e descobriu-se a ella quem era. Grandes promessas, que lhe fazia, e ricas joias que lhe dava, com palavras amorosas e meigas, n’esta casta e honesta donzella não fizeram abalo. Elle que a viu tão determinada, a levou a um jardim, logar onde ainda que bradassem não podesse ser ouvida; e lhe ia tirando das roupas que levava vestidas; por lhe ganhar a vontade, largou-a de si um pequeno espaço, ficando-lhe porém o cabo do trançado na mão. A donzella, tanto que se viu fóra de suas mãos, tirou com diligencia o garavim da cabeça, e mettendo-o no tronco de uma arvore, se foi até chegar ao pé do muro do jardim, e subindo na parede, sem temer a queda, se deixou ir abaixo em camisa e em cabello. E assi se achou na rua a tempo que já havia muito que era achada de menos do irmão, e d’elle e da mãe buscada por todas as partes. E quando sua mãe a viu, e ella viu sua mãe, parecia que ambas ressuscitavam, e logo quietamente coberta com a capa e sombreiro do irmão se foram para casa. O fidalgo, tanto que lhe pareceu que tardava, ainda que tinha o trançado na mão, porque não lhe respondia chamando-a, foi para ella cuidando que lançava mão de sua pessoa; achou-se abraçado com o