Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/358

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tronco da arvore onde o garavim estava posto, e sintindo o engano, e como não sabia quem era, nem cuja filha, se recolheu em sua casa triste, então lhe estava mais affeiçoado que d’antes. E com desejo de a vêr e saber quem era, e havel-a por molher, cahiu em cama doente de imaginação, e tanto esteve assi que se secava e houvera de morrer, senão dera conta do caso a uma discreta dona que o criára, a qual entendido tudo o que passara, tomou o vestido, que foi tirado da moça, e foi-se pela villa dizendo que o achara, e se alguma pessoa o conhecesse e mostrasse como era seu lh’o daria. E isto fazia por saber quem era aquella donzella; o que a boa dona fez com tanta sagacidade, que por enculcas veiu á propria casa d’onde o fato era. A dona foi dizer ao fidalgo a casa e a pessoa que era; e elle, visto e ouvido o que dizia d’aquella que já tinha feito senhora de si na vontade, folgou muito e aguardou tempo que soube que estava vestida com o proprio vestido, e então para melhor se affirmar se era ella, se subiu pela escada acima, e de supito deu com a mãe, e com ella e seu irmão, que estavam descuidados de tal vinda. E o fidalgo tanto que a viu logo conheceu ser aquella por quem passava os trabalhos que passou desde que ficou sem ella no jardim, e com muita cortezia lhe disse:

— Senhora, desde agora vos fico que nunca haverei outra molher senão a vós.

A donzella, vergonhosa de ouvir, e a este tempo se desbarretou e queria pedir-lh’o em giolhos, se lhe humilhou muito e tomandoo polas mãos o fez erguer. Depois se correram os banhos, e com muito contentamento de ambos viveram sempre; e por esta donzella se disse o rifão:


A moça virtuosa

Deus a espósa.

(Trancoso, Contos e Historias, Parte I, conto 4.º)