visinho. ElRey entendendo-os, mandou lançar sortes, e ao que coubesse pedir, pedisse por força, dizendo-lhe:
— Tu que queres mais do que souberes pedir, pede á tua vontade, farta-te, e depois deixa-me dar a est’outro dous tantos, que tu nada perdes n’isso.
Nenhum d’elles tinha paciencia, e per derradeiro lançaram sortes, e aquelle a que lhe coube pedir, ficou per isso muy triste, e depois de bem imaginar no que pediria, veiu ledo a ElRey e disse-lhe:
— Senhor, já sei o que ey de pedir, e se m’o deres cumprindo tua palavra, ficarei contente e amigo de meu visinbo, dando-lhe a elle o dobro.
E ElRey lh’o prometteu sem falta; elle se poz em geolhos, e lhe beijou a mão pela mercê e logo lh’o pediu:
— Dê-me vossa alteza um d’estes meus olhos aqui posto na minha mão.
ElRey maravilhado do que pedia, lhe disse:
— Jesus! e porquê?
E o homem tornou a dizer:
— Porque, conforme a promessa de vossa alteza, se me tirarem um olho a mim, hão lhe de tirar dois olhos a elle, e assi vendo-lhe eu este damno me contento.
Foy muito de espantar a crueldade d’este e vêr o endurecido odio que ambos se tinham.
(Trancoso, Parte i, conto ix.)
Em certa cidade avia dois homens, um era muito avarento e outro muito invejoso; sabendo-o o senhor d’aquella terra, os mandou chamar e lhes disse: «Determino de vos fazer mercês, e hão de ser d’esta sorte. Peça qualquer de vós primeiro, e veja o que pede, e como, porque