Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/361

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ao segundo hei de dar dobrada do que ao primeiro.» Ora notae; o avarento como cubiçoso queria pedir primeiro para levar alguma cousa, ainda que não fosse tanto; mas o invejoso para que não levasse nada, inventou uma cousa diabolica, pediu primeiro, e foi que lhe tirassem um olho, para que ao avarento lhe tirassem dois, conforme ao concerto que haviam feito, assi foi, e ficaram ambos castigados.

(Saraiva de Sousa, Baculo pastoral, t. I, p. 231.)


155. MINHA MÃE, CALÇOTES

Perto da cidade do Porto, onde chamam Paço de Sousa, havia um pobre homem que tinha seis crianças, entre filhos e filhas, de que alguns eram de dezesete ou dezoito annos, e d’ali para baixo. E tendo-os derredor de si um serão, sobre ceia de borôa e castanhas, de redor do lume muito contentes, olhou pera elles, e viu-os taes, que o melhor arroupado, se tinha camisa não tinha pellote, e se pellote, sem mangas, e se mangas sem fralda, e todos descalços e sem barrete nem coyfas; assi que todos se cobriam com fato, que pera bem não bastava a hum, e esse muito velho e esfarrapado, que quasi não prestava. E vendo-os taes, disse á mulher:

— Ouvis? lembre-vos ámanhã, se nosso Senhor quizer, que peçaes a minha comadre Briolanja de Payva huma quarta de linhaça emprestada; semeal-a-hemos, e com ajuda de Deus, averemos linho, de que façamos no verão calçotes para estes cachôpos.

Os filhos, tanto que o ouviram, saltando no ar com muito prazer, diziam uns aos outros rindo:

— Ai, calçotes, mana! Ay calçotes!

Tanto riram e folgaram, estando ainda nús, que o pae disse: