Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/364

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não por lhe parecer que teria valia, senão para testemunha, que quando dissesse que lhe dera o real por ella, fosse crido, e assi a levou todavia. Chegando achou sua mulher á porta, que o esperava, desejosa de vêr o real bem ganhado, que o marido havia de trazer. N’isto elle que chega, e mostrou-lhe a pedra que trazia, e disse-lhe o caso que acontecera. A mulher logo á primeira face teve desgosto por não vêr com seus olhos o real; tomando a pedra da mão ao marido, arremessando-a para dentro da casa, disse:

— Ah! que nem este real nos veiu ter á mão.

Por que os paes dos moços, que os viram escalavrados e souberam d’elles a briga e donde e sobre que fôra, e quem fizera a paz e como lhes dera um real, que elles sabiam que o pobre homem não tinha de seu, ambos juntos lh’o agradeceram muito, e cada um d’elles por si lh’o pagou com grande ventagem, e d’alli em diante lhe faziam muitas honras conhecidas, que mostravam ser feitas pelo amor com que lhe tirou os filhos do arroido e peleja que tinham.

Aconteceu que em este tempo passou por aquelle logar um fidalgo, que por mandado de elrey ia a outro reino por Embaixador, e levava comsigo dez ou doze homens; e conveiu-lhe ficar ali uma noite em aquella aldeia, esperando certo recado da côrte. E ainda que para seu aposento lhe deram as melhores casas que avia no logar, não lhe bastaram, e foi neeessario agasalhar alguns dos seus em outras casas, e agasalhando-se pela aldeia, coube a este homem um d’elles. Este homem, criado do Embaixador, depois de lançado na cama, sendo passado uma grande parte da noite, acordou e viu que a seu parecer avia resplandor na casa, que a tal hora da noite, conforme ao tempo não se permittia, e admirado, foi posto em confusão, d’onde aquillo podia proceder. E por saber o que era se ergue como sesudo, e mui quietamente se foi para onde via a claridade, e pouco a pouco,