Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/368

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soffrer; e ali lhe deu uma grande bofetada; pelo que ella, pósta em cabello, gritando muito rijo, disse:

— Isso mereço eu, falso traidor? porque ha mais de seis dias que calo e encubro tua maldade, que matastes o nebri do senhor Duque, e o comestes por lhe dar desgosto, e não porque te faltavam a ti aves prezadas que comer.

Como isto foi dito a grandes brados na praça, por para pouco se teve o que mais tardou em dizel-o ao Duque, temendo que se o não descobrisse cairia em sua desgraça. O Duque tanto que o soube o mandou prender, e sem nenhuma misericordia, visto o testemunho da mulher e dos servidores e gente de sua casa, que todos affirmaram vêr-lhe trazer o nebri morto e mandal-o assar, e que o ceiara uma noite, foi por sentença mandado degolar na praça da cidade, e que perdesse sua direita parte dos bens que tinha para a corôa, conforme estava apregoado. E tirando-o da cadeia para se executar n'elle a justiça, a este tempo tinha o mancebo junto comsigo um virtuoso padre religioso a quem tinha dado conta do caso todo como passava assi como a historia o tem contado, que ouvindo-o, logo se ergueu em pé, e disse alto a todos que o ouviram:

— Este homem é julgado por falsa informação, e não é a sentença dada justamente; esperai, que eu irei fallar ao Duque, e será de outra maneira.

E assi foy e contou a sua Senhoria toda a historia passada do rogo do velho pae a seu filho até o estado em que estava, por vêr o segredo que sua mulher lhe tinha, no que fingidamente lhe dissera pera a provar. Que sua Senhoria mandasse pelo nebri á quinta, que elle lhe descobrira que era vivo e estava ali; e para mais certeza, que tomasse aquella chave e o mandasse tirar, e que se lembrasse que conforme ao pregão que mandou dar, por esto feito de lhe descobrir o nebri e fazer-lh'o aver era perdoado. Porém que elle o não pedia senão, que se to-