Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/370

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quasi fingido esperava por outra pessoa, e como que não fosse aquillo do caso proprio, lhe disse:

— Entrementes, vêde que laranjas estão ali fóra n'aquella bacia.

O mancebo olhou, e vendo as quatorze metades, que cuidou que eram inteiras, e as quatro inteiras tudo, em lançando-lhe os olhos sómente, disse:

— Senhor, são duzia e meia de laranjas. Que, na verdade, como estavam sobre a agua assi o pareciam; e o Senhor disse:

— Dizei a vosso pae, que mande cá outro filho (o qual veiu).

E aconteceu-lhe da mesma maneira que ao primeiro, que tambem disse que as laranjas eram dezoito, como o pareciam. E o Senhor mandou vir o terceiro, o qual vinha desgostoso, porque já sabia a pergunta, e não sabia que responder. E todavia chegando, o Senhor lhe mandou que visse as laranjas que estavam n'aquella bacia, como dissera aos outros; e elle saindo fóra, chamou dois homens da casa, que andavam passeando na sala, e disse-lhes:

— Senhores, o Duque manda saber as laranjas que estam n'esta bacia; sêde presentes por que sejaes testemunhas do que achar.

E assi, tirou as laranjas fôra, e viu elle e elles que eram as quatorze metades e as quatro inteiras; e metteu a mão na agua e viu que não havia lá outra cousa, e assi fez que o vissem aquelles dois homens que alli estavam. E visto isto, tirou papel e escrivaninha que levava comsigo e fez auto do que alli se achou, e nomeou n'elle os dois homens que foram testemunhas e o assignaram, e com isto tornou ao senhor, que visto lhe pareceu bem a diligencia que fizera, e disse-lhe:

— Vós o fizestes como official, e não como os outros, que sem vêr o que era disseram o que lhes pareceu.

E logo mandou que mandasse fazer a carta do officio,