Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/372

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meu pae deixou de acabar, porque alimpadas com meu trabalho e de minha mulher e filhos, as possa cobrir de trouxa e agasalhar-me dentro; que ellas a ti não te aproveitam, nem as estimas, e estão em esterqueira do concelho, feitas pardieiro; ellas estão galgadas de maneira que sem lhe acrescentar parede, ali as cobrirei do que puder, e n'isto me farás grande esmola.

O irmão menor vendo a necessidade de seu irmão, e como dizem, porque o sangue não se roga, entregou-lhe as casas, e fez-lhe d'ellas sua carta de doação livre e desembargada.

Passados annos o irmão menor veiu a casar, e porque a quem tem muito lhe dão mais, deram-lhe grande dote com uma mulher tão cobiçosa da fazenda, que o muito que tinha lhe parecia nada, e o pouco alheio cuidava que era muito e o queria e cobiçava para si. E d'esta maneira, indo um dia a visitar a mulher do cunhado, irmão de seu marido, viu o principio e entrada da casa e o portal de pedraria que mostrava demandar mais agua, que ser logo em cima coberta de trouxa como estava, e cobiçosa de aver aquelle assento e fazer n'elle casas para sua morada custosas e ricas, sem fazer ali muita tardança veiu ao marido e disse-lhe — que comprasse aquelle assento a seu irmão, dando-lhe por elle com que podesse aver casas pera si em outra parte. E elle lhe respondeu: — que o não faria, porque elle lh'o dera feito pardieiro, que não era razão pedir-lh'o agora que o tinha limpo, ainda que fosse por compra.

Quando ella isto ouviu, ali foi a grita, que em toda a visinhança se ouviu seu brado, dizendo: — que folgava muito de saber que elle lh'o tinha dado, porque já agora não dizia ella por dinheiro, mas sem elle lh'o avia de dar, e se não fosse em paz e por bem, seria por justiça. E dava logo esta razão:

— Se vós lh'o destes solteiro ereis menor; e se lh'o destes em casado, a dada não vale, que eu não consinto.