Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/377

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o matasse, que d'esta maneira o matador pagaria como peccou; e se não quizessem aceitar isto, que pagassem ao pobre pela affronta em que o puzeram cincoenta cruzados.

Os filhos do velho, visto que podia ser deitando-se do muro errar o golpe e não lhe fazer damno, e o que se lançasse corria muito risco de perigar, davam brados, e foram logo reteudos e ouveram por bem de pagar os cincoenta cruzados, antes que aventurar a vida. E assi o homem accusado ficou livre e com muito dinheiro com que se tornou para Lisboa na azemela, que lhe julgaram.

(Trancoso, Contos e Historias, Parte I, conto XV.)




160. DOM SIMÃO

Deu um principe poderoso uma Commenda grande de muita renda a um fidalgo nobre, que além de a ter ganhada em Africa, segundo costume, elle a merecia por sua virtuosa condição e bons costumes. Pareceu-lhe a ElRey que Dom Simão era caçador e tinha muitos galgos e outros cães, e se indignou tanto contra o fidalgo e determinou destruil-o ou matal-o; e assi com supita menencoria, fez fazer prestes e cavalgou aforrado, e em cinco dias foi ter á Commenda donde o bom Commendador estava, bem fóra de cuidar a menencoria que el Rey trazia contra elle. E tanto que el Rey chegou, foi o Commendador para lhe beijar a mão, mas el Rey lhe mostrou no rosto a má vontade que lhe trazia, e o apartou logo, e disse-lhe:

— Eu tenho informações dos males que fazeis, os quaes determino castigar, e hade ser em todo caso amenhã; salvo se em amanhecendo me responderdes a tres