Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/380

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elle mesmo, eu lhe peço que o queira ser justo como o é em tudo o mais, e respondendo, digo: que está vossa alteza com todo seu coração cuidando que está falando com Dom Simão o Commendador, e fala com seu hortelão, que eu não sou elle. E se o quer vêr vestido com minhas roupas, está dando esmola aos pobres que mantém cada dia n'esta commenda.

El Rey vendo a habilidade d'este homem, e que em tudo dissera bem, quiz saber d'elle com juramento a vida do Commendador e seu exercicio; folgou muito de saber e despedindo-se do Commendador lhe mandou dar das rendas da coroa dois mil cruzados cada anno. E ao hortelão dava el Rey carregas honrosos na côrte, porque andasse n'ella, o que elle não acceitou por servir a seu senhor, que lh'o agradeceu e pagou, tratando-o d'ali por diante como a irmão carnal.

(Trancoso, Contos e Historias, P. I, conto XVII.)




OS TREZ CONSELHOS

A casa de um sabio letrado chegou um mancebo de dezouto ou vinte annos e lhe disse:

— Meu pae, antes de sua morte me deu cento e cincoenta cruzados e me mandou que buscasse n'esta terra tres doctos varões, a quem desse cincoenta a cada um, e lhe pedisse por mercê que cada um me desse seu conselho d'aquillo que me pertencia fazer para bom governo de minha pessoa e vida. Eu tenho já escolhidos os letrados, e vossa mercê é o primeiro; sirva-se d'estes cincoenta cruzados.

E deu-lh'os logo em dinheiro, que o letrado tomou, e estudando sobre o caso, passados outo dias lhe respondeu: