Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/394

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nha sua mulher já houveram de ser d'aquelle tamanho, lhe disse:

— Vejo estas casas novas ao longo d'esta ribeira, e estes meninos tão fermosos, folgaria de saber cujo isto é?

Ella respondeu:

— Senhor, as casas e os meninos são meus e de meu marido.

— Dona, as casas creio que serão; mas os meninos, sois já de dias, que parece não deveis de ter tão pequenos filhos. Dona honrada, sou Elrey, e quero saber cujas são estas casas e estes meninos.

Ella se humilhou muito e com os giolhos no chão, que ao que perguntava soubesse, que as casas eram suas, mas que os meninos ella não sabia cujos filhos eram mais que trazer-lh'os seu marido, que aquella manhã fôra ao mar e viria á noite. Então disse Elrey:

— Pois dizei-lhe que amanhã ao jantar vá ter commigo ao paço, e leve estas crianças para me dizer o que sabe d'ellas, que o hei-de esperar sobre mesa.

E ella assi lh'o prometteu. Ido elrey, como se metteu ao longo da ribeira, já ia acompanhado de muitos dos seus e iam buscando se descobririam alguma caça; sua alteza viu umas lapas que parecia que outro tempo foram pedreira e de dentro sahiu uma mulher, que trazia os cabellos muito grandes, soltos e pretos, e os vestidos muito rotos. E assi como ella sahiu viu a elrey e com muita diligencia se tornou a metter para dentro para se esconder; mas como foi vista, elrey a seguiu e asinha a alcançou:

— Quem sois? e porque estaes n'este ermo?

Ella que conheceu mui bem que era elrey o que lhe fallava, lhe disse:

— Para que quer saber vossa alteza a vida de uma mulher desventurada, que em penitencia de seus peccados a faz d'esta maneira, que agora vê?