Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/400

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Respondeu o herdeiro, si. Pois segundo a verba do testamento (disse o juiz) vós havereis cem mil reaes, e a moça novecentos; porque ella hade haver aquillo que vós quereis da fazenda do testador, e esta foi a sua vontade, mas leixou a verba amphibologica por oulhardes milhor pola fazenda de sua filha, té ella ser em edade para casar. E d'estes exemplos ha muitos, de que os oraculos dos gentios usavam para enganar os seus devotos.

(João de Barros, Grammatica, p. 170. 1540.)





166. O FALSO PRINCEPE
E O VERDADEIRO

Acabado de repousar a sesta um rei viuvo, que já sahia fóra da camara para a guarda roupa, muitos fidalgos mancebos lhe apresentaram um, que traziam ante si preso, e póstos ante elle lhe disseram:

— Senhor, estando agora na sala grande jogando á péla o princepe com este fidalgo e outros, sobre uma chaça vieram a ter differença no jogo, e tanta que o Princepe manencorio contra elle o affrontou e lhe disse palavras muito feias e mal ditas, que este fidalgo alevantou a mão e lhe deu tão grande punhada no rosto, que lhe ensanguentou os narizes e bocca, cousa que a todos nos pareceu tão mal que o queriamos matar por isso, e o fizeramos se não fôra pelo Duque seu avô, que com grandes brados se poz no meio, dizendo: Que pois sua alteza estava na terra não quizesse mos nós tirar-lhe seu mando.

Elrei que o ouviu entendeu bem o caso, e disse:

— E o princepe a esse tempo não tinha comsigo nenhumas armas? Ou como lhe não tirou a vida?

— Armas, tinha; que sempre traz adaga na cinta; po-