Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/401

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rém tanto que se viu ensangentado se poz a um canto da sala a chorar, coisa que de todos lhe foi muito estranhada.

Elrey deixando passar um pequeno espaço em o qual deu logar a apartar de si a grande ira que com a supita menencoria tinha concebida contra o fidalgo, e socegado no espirito, disse:

— Affirmo-vos, em verdade, que mais quizera que me dissesseis que o principe era morto, ainda que não tenho outro filho, que saber que soffreu essa injuria tamanha sem se vingar d'ella. Quero que seja ouvido este fidalgo ante os meus desembargadores, guardando-lhe tambem a elle seu direito e justiça, que creio não terá nenhuma desculpa que o escuse de morte, havendo feito tão grande delicto como fez.

E ainda que o mancebo a este tempo quizera responder, elrey o não quiz ouvir, mas mandou-o ter preso e arrecadado com grande guarda; porém que se quizesse ir a alguma parte da cidade que o levassem com muito resguardo e segurança, e que esta prisão fosse por quinze dias, dentro dos quaes se provesse do que lhe cumprisse, e no cabo se apresentasse ante elle e os seus desembargadores. Muitos fidalgos que se acharam presentes acompanharam a este mancebo e lhe aconselhavam que se fosse, porque o podia fazer não sómente da cidade mas do reino até á raia na fronte ira dos imigos, onde trabalhando em armas na guerra podia fazer cousa com que elrey lhe perdoasse o mal que fizera, o que elle não acceitou nem quiz nunca quebrar a prisam que lhe deram. E assi se lhe passaram os catorze dias do praso em os quaes, ainda que buscou conselho de letrados e fidalgos para sua salvação, não achou quem lhe aconselhasse cousa que o satisfizesse, nem desculpa do delicto, porque a todos parecia caso de morte. E muy inteiro n'esta tenção sabia alguns dias de sua pousada acompanhado de seus guardadores por se desagastar, e para vêr