Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/402

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se achava quem lhe abrisse algum caminho como parecesse mais despejado diante de elrey. Recolhendo-se quasi noite encontrou á porta de um Mosteiro uma mulher muito velha, que ao parecer seria de noventa annos, muito feia, secca e mal arroupada, e ella que o estava esperando, chegou-se a elle e disse-lhe:

— Senhor, eu vos faço saber que sei a pressa em que andaes e o remedio que tendes para sobrar vossa vida do caso que vos aconteceu; para o qual não achareis no mundo quem vos aconselhe o que vos cumpre senão eu, e seguindo a ordem do meu conselho sereis livre d'esta affronta e ficareis o mais honrado de vossa geração. Porém, antes de tudo, para que eu tenha razão de vos dar a industria e modo que necessario é n'este caso, convém que façaes por mim o que vos eu pedir.

O fidalgo tanto que a ouviu e entendeu o que lhe dizia, foi em extremo ledo, promettendo-lhe de fazer por ella tudo o que lhe mandasse; porém ella disse que havia de ser logo, e que o que lhe pedia era que a recebesse por sua mulher, do qual elle se maravilhou muito e respondeu:

— Deixando á parte a calidade das pessoas em que não fallo, vossa edade não conforma com a minha, que eu ainda não fiz vinte annos e vós pareceis de cento ou quasi, pelo qual não posso casar comvosco.

Ella se mostrou muito agastada e respondeu:

— Embora; e vós engeitaes-me por velha, pois eu vos certifico que me haveis de rogar e receber, se não que ireis a casar com a picóta, que é mais antigua deixando-lhe lá a cabeça por arras.

E assi se apartou d'elle, indo muito direita pelas ruas. O fidalgo, que com as suas palavras estava já esforçado e com esperança da vida, vendo-a ir, e temendo se fosse ficaria sem remedio, foi-se após ella com tenção de lhe prometter o que pedia, e tanto a seguiu, que a alcançou e lhe disse: