Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/407

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seu marido, conhecendo que era acabado o tempo de seu encantamento, lhe disse:

— Senhor, quem me desconhece de dia na sua sala por velha, não é rasão que me venere e conheça em outra parte por moça e fermosa; pelo que vossa alteza não haverá de mim mais do que até agora houve sem se determinar de duas cousas qualquer: Se me quer esta que ora me vê de noite comsigo na cama, e que me hade soffrer de dia velha e fêa na sala; ou pelo contrario, ter-me na sala de dia esta moça e fermosa, e na cama de noite velha e fêa. E como se determinar no caso assi lhe responderei e direi o que hade fazer ao diante.

O princepe, que já a este tempo estava tão namorado d'ella, que por nenhum preço a queria perder, nem aventurar-se a isso, lhe respondeu:

— Seja eu tão ditoso que vos não perca, e no mais vos quero como vós quizerdes que vos queira, porque em vossa vontade deixo a minha, e essa quero seguir toda a minha vida.

A este tempo ficou a princeza muito leda, e logo disse:

— Pois senhor, de hoje para sempre serei esta que aqui me vêdes e não parecia, porque já é acabado meu encantamento. Parece cousa tão contra rasão vêr-me hontem velha e fêa e hoje moça e fermosa; é necessario dizer-vos quem sou. Elrey de Granada é meu pae; sendo eu de sete mezes, estando no berço a deshoras a ama que me criava viu que em um instante se me mudou a côr e se me arrugou a pelle de maneira que me tornei logo velha muito fêa; minha ama deu logo grandes brados, aos quaes accudiram elrey e a rainha, e ainda que a ama lhes disse o que vira disseram elles que não era possivel senão que alguma cousa má lhe levara a filha, e logo lançaram fóra de casa a ama, queixosos d'ella, que saiu commigo do paço, e buscou quanto a ella foi possivel, quem lhe dissesse que cousa fôra aquella e o reme-