Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/408

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dio que tinha, e achou um velho que lhe disse, que antes de quinze annos de minha edade seria livre e com muito contentamento, porque aquillo fôra feito por ciumes de uma mulher com quem meu pae antes de casar tivera conversação; e aconselhou a minha ama me trouxesse a esta cidade, porque aqui haveria fim meu trabalho e eu ficaria livre.

Todos folgaram muito de saber que era de tão alto sangue; despediram logo mensageiros que o fizeram saber aos reis de Granada, os quaes levaram tanto gosto d'isso, que não se poderam ter sem virem alli donde viram a filha e genro e aos Reis seus sogros.


Trancoso, Contos e Historias, P. III, conto I)




167. CONSTANCIA DE GRIZELIA

Em os confines de Italia, mais á parte do ponente, região alegre e deleitosa, povoada de villas e logares, habitava um excellente e formosissimo Marquez, que se chamava Valtero, homem mancebo, dotado de grandes forças e rara gentileza. Por diversas vezes indo á caça havia visto Grizelia, que morava não longe da cidade onde o Marquez tinha seus paços, com seu pae, em um logarzinho de poucos e pobres moradores, com algum gado, que com industria de Grizelia eram governados grandemente. Era esta lavradora de bom parecer quanto á disposição e presença corporal, porém fermosa, de animo, nobre criação, raro aviso, era excellente e como era criada a todo o trabalho, não se achava em seu pensamento nenhum modo de deleite, antes um grave e varonil coração publicava em defensão de sua honestidade; era coisa de notar como estimava suas ovelhas e servia seu pae. O Marquez determinou que Grizelia fosse sua