Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/410

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— Baste isso, que não se espera menos de vosso bom entendimento.

E tomando-a pela mão, a tirou fóra diante de seus cavalleiros, dizendo-lhes:

— Amigos, esta é, ainda que mal composta, minha mulher e senhora vossa; portanto amae-a e servi-a como é razão.

Entonces os cavalleiros com os chapeus nas mãos se agiolharam beijando-lhe a mão com muita cortezia cada um por si. Ella abraçando um a um os alçou do chão com toda a humildade que podia ser. N'isto mandou o Marquez que um d'elles levasse secretamente a nova Marqueza ao paço e a puzesse no aposento de uma ama sua de quem muito se fiava, pera que fosse despida dos vestidos que trazia, e vestida d'aquelles ricos, que o Marquez pera aquella hora havia feito. E despedido d'elles com a cortezia costumada se entrou em o aposento onde estavam a Grizelia vestindo e compondo pera tal effeito; a qual estava já pósta a ponto, e o Marquez lhe deu um rico anel em sinal de desposada e tomando-a pela mão sahiu com ella onde estavam já aguardando todos os cavalleiros e damas que haviam de vêr a noiva, e onde logo foram desposados por um bispo, e se celebraram as bodas, passando aquelle dia com grandes festas e prazeres.

Mostrou-se despois em pouco tempo na nobre e já feita nova Marqueza tanta graça e prudencia, que não mostrava em cousa alguma ser nacida nem doutrinada na aspereza do monte. Com tão excellente mulher vivia o Marquez em suas terras em muita paz e socego. D'ali a tempos pariu uma filha em extremo fermosa; do qual parto levou o Marquez estranho contentamento, o qual por provar sua constancia ordenou uma cousa estranha de maravilhar e não digna de louvor, que mandou a sua ama, que era mais sagaz e cautelosa, do que elle se fiava: «Que tomasse uma menina, que havia trazido do