Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/411

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esprital fallecida d'aquella hora, e estando a Marqueza dormindo de noite na sua cama lhe tomasse sua filha e lhe puzesse aquella morta com os proprios vestidos que a sua tinha.» Feito tudo isto com a maior sagacidade, a Marqueza acordando, e achando ao seu lado a criança morta, cuidando ser sua filha começou a gritar. O Marquez que já estava sobre aviso, acudiu muito apressado, mostrando-se muito espantado do acontecido. Elle esteve recolhido em seu aposento por espaço de alguns dias, em os quaes ordenou a um criado seu mui familiar secretario de suas cousas, levasse sua filha a elrey de Polonia, pera que a criasse em toda sorte de bons e virtuosos costumes e sobretudo a tivesse tão secreta, que ninguem soubesse cuja filha era. D'ali a quatro ou cinco dias, determinou o Marquez de visitar a Marqueza, a qual achou encerrada muy triste, e entrando mandou que todos se sahissem fóra, e elle ficando só com a Marqueza lhe começou a dizer:

— Meus vassallos estão de vós mal contentes e lhe parece cousa aspera ter por senhora uma mulher baixa de rustica geração; e eu como desejo de os ter contentes e em paz, queria que vos tornasseis para casa de vosso pae.

Acabado que a Marqueza ouviu isto, nenhum sinal de turbação mostrou, antes com gentil semblante lhe respondeu:

— Não ha ahi cousa nenhuma que vos agrade, que a mi me não contente; isto é que firmei no meio de meu coração quando vos dei a palavra de ser vossa mulher.

Considerando o Marquez o animo e profundissima humildade de tal mulher, sem conhecer n'ella mudamento nenhum do que d'antes era, atalhou a pratica, dizendo:

— Abaste por agora isto; ponha-se silencio n'este negocio até vêr se meus vassallos me tornam a importunar.

Com esta dissimulação passaram doze annos no cabo dos quaes a Marqueza pariu um filho. Ao fim de dois an-