Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/413

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A isto respondeu a nobre Marqueza:

— Sempre eu entendi que entre vossa grandeza e meu pouco merecer não havia proporção nenhuma. Em o demais apparelhada estou a servir a vossa desejada esposa, se fôr necessario.

O Marquez como não cansado de a experimentar em diversas coisas, lhe disse:

— Já que, fermosa Grizelia, vos offereceis para servir minha esposa, eu quero que fiqueis em casa a dardes ordem ao recebimento e banquetes, que se offerecerem.

Ella foi mui contente e ficou em casa feita criada e dispenseira, e n'isto com sua boa prudencia cuidava que tinha alcançado muito. N'este tempo que isto passava, mandou o Marquez a seu secretario, de quem muito se fiava, com cartas escriptas de sua mão, acompanhado de muitos cavalleiros pedindo a el-rei de Polonia lhe mandasse a filha que lhe tinha mandado. Era tão grande a amisade que elrey tinha ao Marquez, que determinou de os acompanhar e assinado certo dia tomou seu caminho, levando comsigo a donzella, que em extremo era fermosa e levava comsigo o infante seu irmão, chegando em poucos dias em presença do Marquez.

A que sabia ser Marqueza, em figura de servidora de casa, chegou a dar os parabens á noiva e fingida desposada, sem se poder fartar de louval-a de fermosa e avisada. Determinados de se assentarem a comer, revirou-se o Marquez para sua Grizelia, meio rindo, em presença de todos, lhe disse:

— Que vos parece, Grizelia, esta minha desposada? não é muito fermosa?

— Não cuido que se ache em todo o mundo outra que mais o seja.

O Marquez vendo a generosidade com que isto dizia, e considerando aquella grande constancia de mulher tantas vezes e tão fortemente tentada da paciencia, não po-