Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/414

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dendo mais dissimular a fez vir assentar a par de si, dizendo:

— Oh minha nobre e amada mulher, não cuido haver homem debaixo do céo, que tantas experiencias de amor de sua mulher haja visto como eu. Vós sois, senhora, minha mulher, nunca outra tive, nem tenho, nem terei. E esta que vós cuidaes que é minha esposa, é vossa filha, a qual fingidamente fiz que a tivesseis por morta; este é o infante vosso filho. Pois juntamente cobraes tudo, perdoae-me os desgostos que vos tenho dado, pois foram para mais fineza de vossa honra.

Ouvindo isto a nobre Marqueza, de prazer perdia o sentido, e com o soberano goso de vêr seus filhos, que tantas vezes tivera por mortos, sahia fóra de seu juizo, e querendo ir-se para elles desfeita toda em lagrimas, não se pôde escusar de os abraçar muitas vezes. Vendo isto as damas e senhoras que ali estavam, todas á porfia com muito gosto e prazer a despiram de seus fatos pobres e lhe vestiram os seus acostumados. Foi para todos um mui grande dia de alegria, e com isto viveram despois marido e mulher largos annos com muita paz.

(Trancoso, Contos e Historias, Parte III, n.º V.)




168. O BARBEIRO DO REI

Um rei havia ficado por fallecimento de sua mulher com uma filha, a qual era herdeira e successora do reino. Este, para tirar de si paixão e malenconia, que lhe sobrevinha por causa de sua tristeza, se sahia muitas vezes por tempo de verão a um pateo que tinha, muito fresco, ornado de muitas flores cheirosas, que ali mandara crear por seu refrigerio. Estando n'este pateo que digo, vinha por algumas vezes com elle por seu mandado o seu bar-